Atividades Educativas. Atividades pedagógicas

Mudanças teórico-pedagógicas ligadas ao gênero textual

O presente artigo foi escrito por Ana Maria Raposo Preto-Bay e tem por objetivo colaborar para a prática pedagógica do professor no processo de letramento dos alunos. Aproveitem a leitura.

Uma abordagem com base na literacia representa um estilo de ensino que os educadores devem considerar se querem preparar os aprendentes para uma participação completa em sociedades que progressivamente exigem competência em nível multilinguístico, multicultural e multitextual (Kern, 2000, p. 16).
Embora ainda não saibamos exactamente o que o termo “globalização”  significa e quais as suas implicações e repercussões na vida da população mundial a curto e a longo prazo, o facto é que o seu uso é presentemente tão comum que já se tornou quase banal. A realidade que procura descrever é a realidade do início do século XXI – uma realidade difícil de descrever dada a sua complexidade e ambiguidade. A constante movimentação de pessoas e produtos, a falta de estabilidade dos mercados de trabalho em nível mundial e local, a diversificação e rápida restruturação de organizações e empresas e a reconfiguração de tarefas e responsabilidades que requerem  adaptação a qualquer momento, todas elas intensificam esse sentido de incerteza a vários níveis.Paralelamente, e não surpreendentemente, o acesso real aos meios de produção, consumo e participação social estão cada vez mais ligados à capacidade de adaptação a essas rápidas mudanças. Os avanços tecnológicos, de que quase todas as comunidades humanas alargadas agora dispõem para a realização de intercâmbios sociais, culturais, económicos e políticos, requerem um nível de sofisticação que é, na realidade, responsável por uma ainda maior exclusão social daqueles que a eles não têm acesso.
A participação social e laboral é, no século XXI, mais complexa. Enquanto, por exemplo, a economia industrial dependia de trabalhadores manuais, cujas qualificações se limitavam quase somente à capacidade de realizar uma mesma tarefa repetidas vezes, a nova sociedade e economia requerem dos seus participantes, entre outras, a capacidade de rápido pensamento crítico, resolução de problemas, argumentação e negociação e, talvez, acima de tudo, altos níveis de literacia. A idade da informação é não só definida pelo acesso e controle de tecnologias e redes-chave, mas também pela livre circulação de grandes quantidades de dados, os quais são quase sempre codificados, catalogados e circulados pelo meio escrito. Neste sentido, a produção e o consumo de textos revelam-se progressivamente como catalisador social de participação e acesso a fontes de conhecimento e, consequentemente, de poder. Trata-se não só de saber ler e escrever, de saber registar e decifrar os aspectos linguísticos de um texto, mas, principalmente, de compreender e saber estabelecer relações sociais através desse mesmo texto.
Como artefactos sociais e culturais, os textos escritos são produzidos e, até certo ponto, produzem as estruturas sociais das comunidades em que existem; são mapas para o entendimento das relações entre membros das várias comunidades e, por conterem indícios reais dessas relações sociais, permitem-nos acesso aos valores e princípios de cada comunidade. Por esse motivo, a nossa familiaridade com textos escritos constitue verdadeira evidência da nossa participação legítima em comunidades culturais, políticas, religiosas e laborais e é, ao mesmo tempo, um ponto de acesso a comunidades a que ainda não pertencemos. Assim sendo, o acesso social a estruturas e comunidades a que desejamos pertencer é, em larga escala, mediado pelo uso efectivo e competente do processo literato da leitura e da escrita nas suas vertentes não só cognitivas, mas também sociais e culturais.
Podemos, assim, argumentar que a literacia é um dos aspectos fundamentais da participação social e que, ao activarmos os mecanismos necessários em nível educativo,  Acesso social, práticas educativas e mudanças teórico-pedagógicas... é possível, até certo ponto, diminuir os níveis de exclusão e desigualdade sociais responsáveis por altas taxas de pobreza, por exemplo, via um maior nível de actividade literata que emana dum sistema educativo eficaz. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), “quando se observa que pessoas com distintos atributos produtivos recebem distintos rendimentos, considera-se que o mercado de trabalho revela uma heterogeneidade preexistente na força do trabalho, gerada no sistema educacional” (TD 1000).
Embora possa parecer não só ambicioso como também injusto justapor o sistema educativo, a literacia e a participação social numa relação causal na mesma linha de argumento, a realidade é que esse é verdadeiramente o “chamado” das pessoas e dos sistemas ligados à educação. Posicionados como janelas para o mundo, os sistemas educativos têm, muitas vezes e infelizmente, as cortinas fechadas. Geralmente preocupados com a aquisição e transmissão de conhecimentos no contexto escolar, muitos educadores em todos os níveis recriam ciclicamente uma forma de incesto intelectual ao duplicarem estruturas antigas de reprodução de saberes para consumo interno em vez de prepararem os aprendentes para acção inteligente e auto-afirmante nas comunidades a que pertencem, naquelas a que querem ter acesso e no mundo em geral.Se o sistema escolar é, por um lado, um veículo  sui generis de transmissão do conhecimento acumulado durante a história da humanidade, é também, por outro lado, um contexto privilegeado para a preparação para o presente e futuro dessa mesma humanidade.

Quando o sistema educativo exclue ou inclue só parcialmente, pelas suas limitações pedagógicas e logísticas, aqueles que mais poderiam se beneficiar da sua existência e funcionamento, o processo de desenvolvimento social é estancado. É, por esse motivo, vital que a escola assuma o seu papel social  e providencie os meios através dos quais os aprendentes se possam cientizar do valor intrínseco das comunidades a que  pertencem e da sua capacidade de participação em novas comunidades sociais, culturais, laborais e políticas. Esse sentimento de pertença e de valor próprio pode ser fomentado pela participação activa no processo escolar, tornando, assim, o sistema educativo uma verdadeira ferramenta para a inclusão e participação dos aprendentes nas sociedades a que pertencem.
O processo contínuo de desenvolvimento e transformação social e cultural inerente a todas as comunidades reside na participação legítima dos seus membros (Lave e Wenger, 1991). Esta legitimidade está ligada ao acesso a recursos através dos quais os participantes podem desenvolver o seu potencial. Na comunidade educativa, os aprendentes precisam ter acesso a estruturas que facilitam o seu desenvolvimento pessoal não só sob o ângulo vocacional, mas também nas áreas de
enriquecimento pessoal, lazer e auto-actualização. O lugar que a literacia ocupa neste processo é indiscutível. Cummins (1989) sugere que é necessário que se faça uma “análise das habilidades e atitudes que esta geração vai precisar para participar  tanto numa sociedade democrática como numa comunidade globalizada” (p. 21) e, segundo ele, uma delas é o “uso activo da língua para comunicação genuína no contexto de uma tarefa com a qual os alunos se sentem intrinsicamente comprometidos” (p. 33).